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capítulo II

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Covid 19

Uma crise chamada Coronavírus

No ano de 2020, a pandemia causada pelo Coronavírus passou a fazer parte da realidade de todos. O Brasil foi economicamente impactado nesse período, em 2020, o PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro sofreu a maior queda em 30 anos, a qual não ocorria desde 1990, com o Plano Collor, que confiscou a poupança dos brasileiros, na tentativa de evitar uma hiperinflação (mas que não foi evitada). Assim como outras cidades brasileiras, São Borja também teve sua economia bastante afetada. Na cidade conhecida como a "Terra dos Presidentes", localizada na fronteira oeste do Rio Grande do Sul, a Covid-19, além de interferir em diferentes setores econômicos da cidade, também provocou a diminuição do fluxo de estudantes no município por conta das aulas que passaram a ser remotas, bem como o fechamento das fronteiras por causa do alto índice de contaminação previsto, o que também afastou, da cidade, os estudantes de Medicina, que estudam em Santo Tomé, na Argentina.

Neste contexto, após dois anos de pandemia do Coronavírus, com 665 mil vidas perdidas no país até abril de 2022, a economia passou por momentos turbulentos. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV/Ibre), a morte de brasileiros a partir de 20 anos de idade enxugou em R$ 5,1 bilhões a massa de renda potencial de suas famílias no período de um ano. E, de acordo com o relatório do Banco Mundial, os efeitos negativos da pandemia devem se prolongar por, pelo menos, nove anos no mercado de trabalho brasileiro. Ainda, segundo o Consórcio de Veículos de Imprensa, o varejo sofreu com as restrições ao comércio, especialmente em abril de 2020, quando desabou 17,2%. Nos meses seguintes (maio a outubro), porém, veio a recuperação das perdas, o que mostrava um cenário melhor daquele que se desenhava no início da pandemia. A expectativa para o início de 2021 não era das mais promissoras e a inflação, que passou a pesar no bolso do consumidor, piorou a realidade impactada pela pandemia e afastou os consumidores das lojas.

 

Quem sentiu primeiro estes sinais econômicos em São Borja foram os trabalhadores informais, como o autônomo Zilomar Sisti (56), que tem uma empresa pequena de aluguel de brinquedos infláveis para festas e eventos e comanda um negócio de churros em dois pontos do centro da cidade. Ele atua no ramo informal há mais de 25 anos e tudo o que adquiriu foi através de muita persistência e dedicação. “Eu resolvi investir neste ramo [churros] por acaso, porque vi uma vez no programa do Chaves, há muitos anos atrás, e aí a gente pensou em fazer e deu certo, graças a Deus. Tudo que eu tenho hoje foi através do churros”, comenta o pequeno empreendedor que viu o movimento na Praça XV de Novembro, seu ponto de vendas principal, diminuir drasticamente com a pandemia do Coronavírus.

Assentos do estádio de concreto
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O autônomo Zilomar Sisti. | Fotos: Anthony Teixeira

Fora a queda bruta no movimento, Zilomar também pontua o alto preço do estacionamento na área central da cidade, as frequentes multas de horário que recebe, o preço da gasolina e o valor dos produtos alimentícios que subiram muito durante a pandemia como os principais dificultadores das funções que exerce, em companhia de sua esposa, no carro do churros. “Tá loco! Isso judia, sabe? Porque aí tu paga empregada, paga multa, paga estacionamento e os ingredientes que vai [no churros] dobraram de preço. Além disso tudo, eu pago garagem pra deixar a camioneta aqui pertinho. Então, assim, tudo é despesa e esses valores [dos churros] eu já estou praticando há uns quatro anos e pretendo subir daqui uns dias porque tudo dobrou de preço, desde a gasolina…”, comenta Zilomar.

Quem também sentiu no caixa a falta de uma maior movimentação de potenciais clientes na cidade foi o microempresário Algacir Bertuol (56), proprietário da Papelaria Graffiti, situada no centro da cidade há mais de 20 anos. “[O negócio] Foi, digamos assim, um dos mais afetados porque nós trabalhamos direto com colégios e faculdades e estava tudo fechado. As vendas foram 50%, 55% menores do que o normal”, constata.

 

 Além de ter sido afetado diretamente sem o fluxo de estudantes na cidade, o seu estabelecimento foi fechado duas vezes durante este período, em decorrência dos decretos municipais e estaduais visando a contenção do vírus, totalizando em torno de 50 dias sem vender nada. Bertuol teve que cortar gastos para se manter e superar o período de crise que o empreendimento enfrentou, uma das alternativas foi demitir dois dos seis funcionários em razão dos prejuízos  que o estabelecimento estava tendo.

 

O economista Oscar Frank entende que saímos com mais desafios da pandemia do que quando entramos, porque o país aumentou, de maneira significativa, o seu endividamento e apresenta uma elevada taxa de inflação, embora, segundo ele, também seja algo verificado em outros países. O que agrava a situação do Brasil é a flexibilização da regra que impedia o governo federal de gastar mais do que arrecada, a regra do teto de gastos que estava em vigor até 2020. “No entanto, compreendo que não avançamos ao longo desse período em mudanças estruturais para gerar maior produtividade da economia e isso particularmente me preocupa”, confessa o economista. 

Em relação aos pequenos empreendedores, importante setor da economia de São Borja, Oscar comenta que “os pequenos negócios foram muito mais afetados em comparação com os grandes na pandemia, em função da sua situação financeira mais frágil e da própria estrutura da composição da mão de obra. Nas grandes corporações, muitas vezes, [eles] contam com as melhores mentes e têm melhor capacidade de enfrentar períodos de turbulência”. 

 

A crise gerada pela pandemia e comentada pelo economista atingiu fortemente os pequenos negócios no país e quase 600 mil empresas fecharam as portas durante os últimos dois anos, segundo dados da PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua). Na cidade de São Borja, um dos empreendimentos que encerrou as suas atividades durante a pandemia foi a Hamburgueria Bela Burger, que atuava na cidade desde 2018. 

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Ex-proprietário da Hamburgueria Bela Burguer, Frederico de Oliveira. | Fotos: Anthony Teixeira

Conforme o corretor de imóveis e ex-proprietário do estabelecimento, Frederico de Oliveira (35), foi difícil manter o estabelecimento com a alta dos preços dos insumos alimentares e também com a ausência dos universitários na cidade, que eram público alvo e consumidores assíduos da hamburgueria. Além disso, o empreendedor avalia que, mesmo fora do contexto pandêmico, é muito difícil manter uma empresa alimentícia em São Borja por conta da quantidade de rendas informais que a cidade comporta, além do alto valor que é desembolsado em impostos para manter estes locais, sem contar a equipe, o serviço de entrega, as apresentações musicais - que eram o diferencial do restaurante antes da pandemia - e as frequentes fiscalizações da vistoria sanitária para trabalhar dentro da legalidade e responsabilidade com os clientes, que sempre foram cumpridos, segundo o proprietário. 

 

Antes do encerramento das atividades, o Bela Burger, através do proprietário Fred, como é conhecido, desenvolveu uma importante ação social solidária junto com os universitários que estavam em São Borja para o início do semestre letivo 2020/01 e foram surpreendidos com o lockdown na cidade em decorrência do Coronavírus. Estes universitários ficaram desamparados devido ao fechamento do Restaurante Universitário (RU) do campus que não podia atender aos estudantes devido às restrições iniciais aplicadas em razão da Covid-19. Além disso, estes alunos não podiam retornar para suas cidades, pois o transporte interestadual havia pausado suas atividades até segunda orientação. Foi então que, através de um pedido de ajuda de um grupo de universitários, o empresário abriu as portas de sua casa e de seu estabelecimento, em um momento bastante crítico de saúde pública, para alimentar aqueles que eram, em sua maioria, seus clientes. 

 

Para tanto, Fred convidava os universitários para almoços e jantares em sua casa, junto de sua família, mas quando viu que o número de pessoas em vulnerabilidade alimentar estava cada vez maior, decidiu colocar a cozinha do seu restaurante à disposição para produzir marmitas para estes estudantes desamparados. “Quando chegou as oito pessoas eu fiquei muito triste porque imagina tu vir de longe estudar, e eu me coloquei no lugar daqueles estudantes ali, sem estar com os familiares por perto e nisso eu me senti muito nervoso porque já morei fora e imagina: tu morando fora quando tudo que poderia te dar um apoio fecha por receio e preocupação com os funcionários, porque nem se sabia o que era uma pandemia. Ninguém sabia que aquela era uma doença que poderia matar amanhã ou depois e realmente matou”, relembra. 

 

Em determinado momento, a ajuda inicial que era direcionada aos estudantes, tanto da Unipampa quanto das outras instituições de ensino superior da cidade, se tornou uma ação solidária expandida. A iniciativa de Fred começou a   beneficiar, além dos universitários e estudantes do IFFar, famílias em vulnerabilidade social e pessoas em situação de rua, porque os pontos de ajuda que essas pessoas recorriam foram fechados de uma hora para a outra. “Naquela época Deus estava apoiando o projeto porque até que a universidade conseguiu um jeito de todos os estudantes voltarem pra casa, ninguém passou fome, e isso eu posso garantir, porque além de ajudar com a fome, tivemos distribuição de produtos de higiene pessoal, tivemos clubes de serviços da cidade que auxiliaram, grupos de amigos que vieram auxiliar…”, explica Fred. A ação durou 90 dias e teve repercussão estadual.

Ação solidária realizada pela Bela Burguer. | Imagens: Giulia Junges/Folha de São Borja

Após a flexibilização dos decretos a hamburgueria voltou a funcionar normalmente até dezembro de 2020 e o ponto foi vendido para outra pessoa continuar o negócio. O novo dono deu uma outra identidade ao restaurante, mas após um ano de funcionamento também não conseguiu mantê-lo, entregando o prédio em janeiro de 2022 e encerrando as atividades do Bela Burger definitivamente na cidade. “Eu pensei várias vezes em reabrir o Bela, eu só não faço isso hoje porque não tem uma equipe formada. Por várias vezes eu penso em abrir porque vocês não tem noção a saudade que eu tenho da hamburgueria, dos amigos que a gente faz lá… No decorrer desses anos que eu estive a frente do Bela Burguer eu conheci muita gente nova, hoje eu tenho amigos em todos o estados do Brasil e isso que é o mais bacana”, comenta Fred, com pesar por ver seu empreendimento fechado e sem perspectivas para voltar a funcionar.

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