
capítulo III
Aqueles que superaram e inovaram
Se de um lado, empreendimentos enfrentaram dificuldades para se manter e muitos fecharam durante estes dois anos de crise, outros superaram as dificuldades, repensaram estratégias e inovaram para resistir à pandemia sem grandes prejuízos. Este é o caso de alguns empreendimentos presentes na cidade de São Borja que abriram ou que se reergueram durante a pandemia e agora conquistam a clientela da cidade para colher os ganhos que ficaram para trás em 2020 e 2021.

Foto: Anthony Teixeira
A primeira loja da franquia Keith Biju chegou à cidade, vinda de Itaqui, em novembro de 2020 e enfrentou o período em que os decretos estaduais impediam vendas presenciais, fazendo com que a gerente administrativa Gabrieli Soares (21), e sua equipe, reinventassem a maneira de vender para atrair novos clientes. “Nós investimos bastante no nosso Instagram, nas redes sociais. Então eu acredito que através de lá os clientes acabam conhecendo melhor a loja, nossos produtos e acabam vindo até a loja adquirir os seus produtos. E a rádio também, nós temos o patrocínio pela rádio, então, o pessoal daqui de São Borja escuta bastante a rádio, ainda mais o público feminino, então, as redes sociais e rádio são os que a gente investe bastante”, comenta Gabrieli.
Mesmo com estratégias de venda diversificadas, a gerente da loja explica que os lucros ainda são baixos pelo impacto da pandemia, porque o movimento ainda está fraco e as pessoas não procuram muito a loja, o que ela associa ao momento econômico em que a maioria dos consumidores está.
O setor imobiliário também soube se reinventar e lidar com as dificuldades provindas da pandemia, como é o caso da Imobiliária Silva Rillo, que atua na cidade há muitos anos. O corretor de imóveis, Aparício Neto, conta que o percentual de contratos encerrados com a ausência dos universitários foi quase nulo porque a empresa desenvolveu uma forma de fidelizar os seus clientes durante este período por meio de descontos nos aluguéis, assim sendo, poucos contratos foram encerrados. “A gente teve, casos a casos, mas falando dos estudantes, eu tenho estudantes que até agora à volta das aulas [presenciais] permaneciam ganhando 30% de desconto todo mês no seu aluguel. Então a gente, obviamente que teve contratos com rescisões, mas a Silva Rillo Imóveis não perdeu clientes na pandemia. A gente teve algumas saídas porque as pessoas optaram naquele momento, mas já retornaram a Silva Rillo outra vez alugando outro apartamento”, comenta o corretor.
Conforme Aparício, a empresa encontrou uma maneira de manter uma boa relação entre locador e inquilino, para que ambas as partes não saíssem prejudicadas da negociação.
Mas mesmo conseguindo contornar a maior parte da crise que acometeu o setor, Aparício salienta que a empresa cruzou a pandemia com uma grande redução nos lucros porque os dois anos com bonificação no valor dos aluguéis, em até 60%, foi algo que impactou a imobiliária. Por outro lado, ele explica que neste período houve um aumento de 30% nas vendas e que isso contribuiu para a empresa se manter estável, mesmo diante da crise sanitária do país. “A pandemia nos deu muito aprendizado, nos deixou ainda mais próximos dos nossos proprietários, dos nossos inquilinos, que até hoje nos valorizam por isso”, complementa.
Como pode-se observar, a presença estudantil é bastante sentida no setor comercial, e principalmente nas imobiliárias, que são o primeiro contato para a chegada desses estudantes à cidade. Durante a pandemia, não foi apenas a imobiliária Silva Rillo que ofereceu descontos. Buscando também manter contratos, a Imobiliária Ícaro apostou na mesma estratégia. A assessora de locação da imobiliária, Marília Belmonte Viana, explica que no auge da pandemia vários universitários acabaram desocupando imóveis, mas que, ao mesmo tempo, muitos deles optaram por permanecer com o imóvel locado mesmo não estando na cidade, mas procuraram fazer acordos para conseguir desconto nos aluguéis. “O pessoal fez negociação, foi dado bonificação no sentido de diminuir o valor do aluguel neste período pandêmico, em alguns casos houve bonificação de 50% do valor do aluguel ou até mais, pelo fato de a pessoa não estar aqui. Então vários optaram por ficar com o imóvel e aguentar esse período turbulento da pandemia”, comenta.
De acordo com Marília, a fidelidade e a boa conduta desses inquilinos facilitaram esse processo. Além de que os contratos mantidos favoreceram ambas as partes. “Nós não ficamos com tanta disparidade entre contratos rescindidos e contratos conquistados. Nós conseguimos alcançar um patamar de paridade nesse sentido. Claro, gostaríamos de ter tido mais contratos conquistados, mas tendo em vista o cenário a gente fica bem feliz por ter conseguido uma paridade nesse sentido”, comenta.

A gerente administrativa Gabrieli Soares e uma das vendedoras da Keith Biju. | Fotos: Anthony Teixeira

Uma opção para muitos estudantes também são os imóveis para locação direto com o proprietário, já que estes possuem um preço, muitas vezes, mais acessível e os acordos são feitos sem a necessidade de comprovação de renda. A jornalista Bernadete Fortes, que tem imóveis para alugar direto com o proprietário em São Borja, desde 1994, relata que teve apenas 20% de seus imóveis desocupados na pandemia e que os inquilinos que optaram por deixar o imóvel foi por um período temporário e depois voltaram e pediram para dar algum tipo de bonificação.
A proprietária de uma república estudantil, Ione Ribeiro Prestes, também investe, há mais de 10 anos, no aluguel de quartos para estudantes em São Borja. A empreendedora é dona de um imóvel bem em frente ao campus da Unipampa e atrai estudantes que estão em busca de preços baixos, moradia de qualidade e proximidade com a Universidade. Com a pandemia, Ione revela que houve momentos difíceis e que dos 10 quartos disponíveis em seu empreendimento, oito tiveram contratos de aluguel encerrados por conta da saída dos universitários da cidade e que, com isso, o seu orçamento ficou bastante comprometido.
A locadora facilitou os preços dos aluguéis durante este período e com isso, conseguiu manter dois inquilinos. “Dois estudantes mantiveram o contrato comigo, porém fiz um valor simbólico só para auxiliar na manutenção da república mesmo, tendo em vista que os estudantes não estavam utilizando a república”, comenta. Com o retorno das aulas presenciais da Unipampa, Ione revela que a procura já aconteceu e que no momento todos os quartos estão ocupados, mas que devido a alta demanda, há uma lista de espera e caso alguém desista de um quarto, novos inquilinos serão bem-vindos.
Outro setor que operou com cautela, mas que conseguiu bons resultados durante a pandemia em São Borja, foi o alimentício. Por mais altos que estejam os preços dos insumos, houve uma grande procura pelos serviços de delivery de comida durante a pandemia e quem soube pensar estrategicamente como vender pela internet obteve um retorno financeiro satisfatório.
Este é o caso da Hamburgueria Velho Oeste, dos sócios Mateus Lencina (27) e Alison Goulart (27), que atua desde 2019 e desenvolveu grande parte do seu plano de negócios durante a pandemia. O empreendimento vem sendo pensado desde 2013 e surgiu da proximidade gastronômica de Mateus com os hambúrgueres, a qual se manifestou por meio de encontros com amigos para assistir futebol, e hoje resulta numa empresa física que atrai cada vez mais novos consumidores com o slogan: “Amizade, Burger e Trago”.


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Os sócios da Hamburgueria Velho Oeste, Mateus Lencina e Alison Goulart. | Foto: Anthony Teixeira
A hamburgueria iniciou no apartamento dos sócios, contudo, em pouco tempo, o empreendimento tomou proporções maiores, precisando de um espaço adequado para se desenvolver, não sendo possível mais manter apenas as entregas por delivery, como ocorria. Esse sistema de entrega foi um grande aliado dos empreendedores comerciais no período de rígidas imposições de normas sanitárias devido a Covid-19. “A pandemia nos trouxe vários vieses e muitos fatores reflexivos, tanto fator emocional, quanto fator humano, então teve um impacto na vida humana de uma forma vista somente pelos nossos antepassados em um outro contexto. Provavelmente, o negócio existiria mesmo sem a pandemia, mas ela nos deu uma visibilidade maior visto que as pessoas presas em casa passaram a usar mais as mídias sociais e nós conseguimos explorar muito bem isso, aí automaticamente teve um ganho em relação a isso”, revelou Mateus. Mas a pandemia também foi um problema. “A nossa equipe toda pegou Covid duas vezes e então tu imagina um estoque cheio e tinha que parar uma semana, ter que negociar boletos… Então foi uma dificuldade muito grande quando a equipe toda adoeceu”, comenta Mateus.
Um dos maiores receios que os empreendedores tinham era o de não estarem preparados para receber os clientes em um ambiente físico quando a pandemia permitisse, como salienta Alison: “Eu acho que na pandemia nós focamos em pensar as estratégias de redes sociais, porque sabíamos que as estruturas de negócios estavam se projetando para mudar durante a pandemia e que isso ia se estabelecer. E esse ambiente é novo, é novo pra nossa cidade, mas a gente também sabia que iam dois anos e isso ia acabar, uma hora ia acabar e o nosso medo era de acabar e a gente não estar preparado para receber [presencialmente] a comunidade que a gente criou através da marca Velho Oeste”.
Para os sócios, os decretos estaduais de fechamento do comércio foram uma grande dificuldade enfrentada. “Nós nos sentimos afetados, mesmo com a proximidade dos nossos clientes pelas redes sociais, porque, na maioria das vezes, nós não podíamos abrir, sendo que o transporte público estava lotado todos os dias. Essas decisões afetaram gravemente a economia, são contradições que os governantes promoveram, como no caso das vendas somente por tele-entrega, os clientes não podiam retirar na porta do estabelecimento por causa do risco de contaminação, o que os obrigava a pagar pela entrega, gerando várias situações pra nós. Entendemos que eles [governantes] não tinham base pra tomar essas decisões, mas eles tinham que tomar decisões e essas decisões nos prejudicaram”, salienta Mateus, expondo o seu ponto de vista.
Com o espaço físico da hamburgueria pronto e apto para receber clientes, os sócios consideram que a quantidade de impostos que se paga para manter um negócio não é equivalente aos esforços estaduais para fortalecer estes empreendimentos. Para Mateus, manter um negócio no Rio Grande do Sul é muito difícil. “A gente conseguiu estar desse jeito hoje, apesar do Estado. Essa é a dificuldade. O Estado, ele existe pra uma coisa que é suprir, através dos impostos, as necessidades da população, só que eles não trabalham pra isso. Eles trabalham para sustentar a gama política que existe. Então se vocês soubessem o número de impostos que uma empresa paga, é taxa sobre taxa de tudo, a todo o momento”.
Entretanto, apesar dos impostos e das decisões referentes aos decretos que foram implementados durante a pandemia, os proprietários da hamburgueria avaliam que empreender em São Borja é satisfatório, e que, inclusive, eles têm clientes ativos desde quando o negócio começou em 2019. No entanto, como o ambiente físico da hamburgueria ficou pronto após três meses em que as atividades presenciais foram liberadas, eles avaliam que perderam em torno de 50% das vendas para os estabelecimentos concorrentes durante este período.
Como a empresa foi desenvolvida durante a pandemia, os proprietários não planejaram estratégias para atrair o público universitário, por não estarem massivamente na cidade. Contudo, preveem estudar esse público para que sejam consumidores do local também. “A galera está recém vindo [para São Borja] e não tem como tu criar uma estratégia em vão. A gente precisa estudar o comportamento dessa galera aqui na cidade, pra depois bolar uma estratégia comunicacional ou outra coisa que atraia esse público efetivamente”, destaca Alison.
O ramo de alimentação sofreu com a pandemia, principalmente devido à inflação, e foram muitos os negócios que fecharam. Segundo o empresário, a empresa Calzoon viu reduzir drasticamente, no primeiro ano, de pandemia os franqueados e depois teve um crescimento vertiginoso novamente. Mas ainda a franquia sente as consequências dessa pandemia. “Nós tivemos a felicidade de abrir já em um período, que podemos dizer, de pós-pandemia, de retomada e abertura dos estabelecimentos comerciais e isto, de certa forma, nos deu a tranquilidade para querer investir neste segmento”, comenta José.
Sobre empreender na cidade de São Borja, José explica que não é uma tarefa fácil, mas, ao mesmo tempo, tem se mostrado bastante promissor. “Insisto. É um ato de extrema nobreza. Precisa ter muito planejamento, não é possível desconsiderar nenhum cenário. Agora, apesar de toda essa crise, quando eu faço um comparativo de São Borja com outros municípios da região da Fronteira Oeste, eu vejo São Borja pungente”, avalia.

Durante a pandemia, também foi desejo de alguns empreendedores de São Borja trazer franquias para movimentar a economia da cidade. Este é o caso do empresário José Pecci (56), que atualmente é dono de uma franquia de lanches naturais, a Calzoon, além de ter também uma loja de cosméticos ao lado do seu mais novo empreendimento. A franquia da Calzoon já está indo para o seu sexto mês de atuação em São Borja e José diz estar satisfeito com os resultados e otimista, mesmo em um cenário de retração econômica, estiagem e num momento em que as famílias estão mais seletivas e preocupadas com o consumo.
José Pecci, proprietário da Calzoon. | Foto: Anthony Teixeira

Aparício Neto, corretor de imóveis da Silva Rillo imóveis. | Foto: Anthony Teixeira
“Os proprietários foram entendendo que esse era o caminho mais seguro de permanência daquele bom inquilino que ele tinha. A gente tem que prezar por ele [o patrimônio do proprietário] como se isso fosse meu, então, dessa maneira a gente conseguiu se manter”, comenta o corretor de imóveis.